
Autobiografia em cinco capítulos
Capítulo 1
Eu ando por uma rua.
Há um buraco fundo no meio da rua.
Eu caio no buraco.
Não é minha culpa.
Demora uma eternidade para eu conseguir sair.
Capítulo 2
Eu ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo no meio da rua.
Eu finjo não ver o buraco.
Eu caio de novo.
Eu não posso acreditar que cai no mesmo lugar.
Mas não é minha culpa.
Demora muito para eu conseguir sair.
Capítulo 3
Eu ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo no meio da rua.
Eu vejo o buraco.
Eu ainda assim caio no buraco...é um hábito.
Meus olhos estão abertos.
Eu sei onde eu estou.
É minha culpa.
Eu saio imediatamente.
Capítulo 4
Eu ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo no meio da rua.
Eu dou a volta e não caio no buraco.
Capítulo 5
Eu ando por outra rua.
Nelson Portia

Ir, ficar, fugir, partir...
Imperativos que se alternam em minha mente
Eu rio, abro um sorriso e dizem "que lindo!"
Ah contentamente descontente
Estou enlouquecendo, talvez esteja doente
Me recomponho e sonho com algo que não estar por vir
Talvez a plavra certa seja realmente
Partir...
"e eu só queria ser uma lágrima para brotar nos seus olhos, descer o seu rosto e morrer em sua boca..."

"Consegui meu equilibrio cortejando a insanidade, tudo está perdido, mas ainda há possibilidades..." (Raul Seixas)
Mais uma vez ia escrever sobre mim mesma, mas desisti...
Quero um outro assunto, qualquer um. Pronto, achei. Ao olhar pela janela agora vi o céu azul ao fim de uma tarde ensolarada de um dia extemamente quente. Irei falar do céu.
As poucas nuvens, antes brancas, começam a ficar alaranjandas com os últimos raios da estrela matinal que se esvai. As piscinas, outroras cheias, começam a esvaziar das crianaças que antes brincavam e cantavam com sua alegria pueril ficando agora somente um fraco canto de pássaros ao lonje, ao lonje.
Pensamentos se levam no vento e deixem-se levar pela imensidão do céu sem fim. A paisagem cortada pelas caixas elevadas cede lugar a magnificência do crepusculo acrônico. E diante disso, a apraxia toma conta e fico estática como uma árvore onde já não se sopra mais ventos. Não importa, esse último segundo não é mais como o anterior, e porque haveria de ser ? E vejo que realmente não poderia ocorrer de outra forma.
Os sons da rua vão se misturando ao cantar dos pássaros que já não é mais predominante. E dominado que torna-se morre frio e seco no silêncio que jamais será alcançado.
"A boca deseja mas a mente não, o coração rejeita onde está a razão ? Calo e me escondo, tranco-me dentro dessa fortaleza que é eu mesma. Sou refém do meu eu e ele não pede resgate. Mantem o prisioneiro até o fim dos seus dias, até que a última gota de sangue seja derramada..."
Ivia Caribé, in Eu por mim mesma

Palavras jogadas ao vento, uma vez ditas e esquecidas.
Eu finjo que esqueço
E passo por cima das palavras
Atropelo sentimentos
Eu sou o que sou? Ou o que acham ?
Me desconheço
E na frente do espelho me dispo de todas as vergonhas
Incutidas em minha mente
Com o desejo sombrio
De esconder o passado latente....
"Toma essa corda e o nó da sua ponta, atira sobre o corrimão da escada mais alta e enforca algumas palavras que você gostaria de ver despejadas - mas mortas o suficiente para não causar nenhum incomodo. "
Luigi Piccolo